Resíduo não é lixo: lições do Edifício Pátio Malzoni

Hoje é quarta feira, dia de colheita no Edifício Malzoni, sede de empresas como o Google, o Banco BTG, Grupo Malzoni, Agência África e outros. O agrônomo Rui Signori separa o mix de temperos que ficam disponíveis para todos os usuários do prédio. Pequenos “saquinhos de gentileza semanal” que são um símbolo do trabalho de todos.

A horta, no subsolo do prédio, é resultado da constatação de que os gestores do empreendimento estavam enganados, há três anos atrás, quando ainda acreditavam que o Malzoni não gerava quase nenhum resíduo orgânico. O resultado do diagnóstico feito pela, Arueira Ambiental, foi o de que eram gerados mais de 600kg mensais de lixo orgânico e que hoje resultam em até 9 toneladas mensais de composto orgânico (adubo) que são doados para qualquer pessoa que quiser retirá-los no centro de reciclagem do edifício, além de empresas, hortas ou entidades que se cadastram para retirar grandes volumes.
“E assim é nas nossas casas, nos escritórios e nos restaurantes. A gente joga no lixo e aquilo some!” – diz Rui Signori, gestor da Arueira, responsável pelo projeto – mas é uma ilusão. Está hora de entender que resíduo não é lixo e, melhor de tudo, pode ser transformado em adubo, em horta, em receita, em educação. Foi através do resíduo (ex-lixo!) que a gentileza entrou no Malzoni de vez.

Várias pequenas transformações foram acontecendo a partir do momento em que o edifício tomou algumas atitudes simples e assertivas, como por exemplo não aceitar mais dos usuários o lixo que não era separado adequadamente nos sacos coloridos de reciclagem. “Sinto muito, pode levar de volta.” – É o que o que ouvem os célebres inquilinos de um dos metros quadrados mais valorizados da cidade. Sou o chato da hora – diz Rui durante a nossa visita ao Projeto ECOMALZONI, por onde passam 10 mil crianças por ano e onde atuam a Sra. Elmira, Rafael e o Lucas, profissionais de resíduos (ex-faxineiros) que antes do projeto nunca tinham dado uma aula ou falado em público, e hoje falam à televisão e a grandes grupos de visitantes.

E essas responsabilidades simples que cada um foi aprendendo a assumir geraram inúmeros resultados, em termos de resíduos e em termos de convivência. Descobriu-se, por exemplo, que cerca de 30 mil cápsulas de café recicláveis eram jogadas no lixo comum simplesmente porque não eram separadas e destinadas adequadamente. E foi ficando claro que a atitude de cada andar do prédio podia gerar valor, e muito! Um quilo de material plástico misturado vale apenas 5 centavos de real, mas as embalagens Pet separadas adequadamente valem cerca de 35 centavos. Um ganho superior a 700%! Não precisa fazer MBA para perceber o valor disso. Pode não fazer diferença no faturamento do Google, do Malzoni ou de qualquer das outras empresas que hoje se hospedam ali, mas gera outro tipo de valor relacionado ao respeito e à convivência em comunidade.

Hoje, se você for ao Malzoni, pode se sentar no jardim dos pufes e observar a Av. Faria Lima dali, quase deitado. Você pode também ir ao jardim do café, deitar na rede, ou jogar pingue-pongue sobre uma grama que, segundo o Rui, era “amarela que só” e hoje é verdinha graças ao adubo gerado no próprio edifício. É a tal da gentileza urbana, que acolhe um número crescente de ciclistas (passaram de 80 a 600 em 3 anos, com toda a estrutura de vestiários e até lavanderia). O Pátio Malzoni recebe um volume cada vez maior de visitantes, como o grupo da Conexão Berrini; gente que, como nós, não tinha ideia de que olhar para o resíduo, pode ser um grande disparador de mudanças!

Essas mudanças geraram também uma grande visibilidade para o edifício, que tem uma história curiosa: durante sua construção, foi encontrada uma casa bandeirista histórica enterrada no terreno (escondida como o lixo). Parece que estava no destino do Malzoni cuidar do invisível. Esse cenário, com a casa ao fundo e o jardim aberto para a Faria Lima à frente como uma grande praça, é hoje cobiçado para filmagens e lançamentos de produtos que geram uma renda adicional para o condomínio, além de chamar ainda mais a atenção e valorizar o empreendimento. “Nossa história mostra como a cidade é carente desse tipo de projeto” – conta Fábio Nascimento – gestor do Malzoni. E mesmo ali, não foi fácil começar. “Poucos acreditaram que daria certo, mas hoje há empresas que escolhem o Malzoni exatamente pela sustentabilidade” – relata Fábio.

Pagar por um projeto de sustentabilidade ainda é raro, daí o Malzoni ter tanto destaque. São milhões de reais gastos em sistemas de energia e ar condicionado (fundamentais, com certeza) e muita relutância em investir naquilo, que, a princípio, some dos nossos olhos.
Mas a velha casa bandeirante está ali para mostrar que não adianta enterrar a história. O que geramos vai voltar para nós.
Hoje o Malzoni ajuda as pessoas que assumem sua responsabilidade pelos resíduos. Ali funciona um PEV (Ponto de Entrega Voluntária de resíduos) e qualquer um, até você e eu, pode entregar seu ex-lixo, agora resíduo, para que seja destinado corretamente. E quem sabe ainda não levamos um pouco de adubo para nossas casas e praças? “Olha, o pessoal está achando até chique, viu?” – diz o Rui.

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Artigo produzido em parceria com a casacausa.com.br. Fotos: https://photos.app.goo.gl/sETQ8VSespdcGPuz2